A dança dos pássaros invisíveis

27 12 2005

Triste privação determinista
que me traz assim,
sem ao menos ter vista
da garatuja imprevista
duma silhueta de mim.

Em caprichos de cores efusas
e de luzes queimadas
rodopiam as matérias difusas
de memórias confusas
das estradas passadas.

Derretem as ceras da vergonha.
E nos mares gelados,
com as serpentes de peçonha,
morrem as caras do homem que sonha
e perecem, com ele, os sonhos tentados.

Reduzido a pouco,
não vou tampouco
além da penúria desta sina.
Feito num nada,
de vida estilhaçada,
sou refém de vilões de rapina.

Mostrem o rosto, ó aves reles
assumam o vosso alvo natural.
Consumam-me as carnes e as peles
e guardem-me, depois, em tumba banal.

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A semente do desejo

20 12 2005

Não me lembro do teu nome…

Não me lembro se o esqueci nas voltas da memória
ou se nunca mo disseste.
Não me lembro do perímetro da tua história
ou das cenas que fizeste.
Não me lembro dos traços do teu semblante,
nem dos odores narcóticos de amante,
com que, nua, levaste a tua por diante.

Não me lembro do choro ostensivo do jacaré
que dormiu, nesse corpo de mulher, a meu pé
e maquinou frias ilusões em marcha a ré.
Não me lembro de despegar das paredes imundas
os ecos das juras mais solenes e profundas
que ousaste glosar em falas fecundas.
Não me lembro de tactear o teu seio,
nem da saliva nos beijos de permeio
nem da volúpia de sangue no sexo molhado
nem dos suores ardentes do coito arrebatado.

Não me lembro de me lembrar de ti.
Não me lembro do que esqueci.
Não me lembro de me lembrar de ti.
Não me lembro do que não vivi.

Foste tatuagem, carimbo e sinal.
Foste roupagem de um limbo irreal.
Já não sei o que és e foste, afinal,
se um desejo, um sonho ou um mal.





Palhaços do Inferno

5 12 2005

Além…
nas densas sombras das portas cerradas
no pranto ciumento das vidraças aladas
danças, sarcástico…
como hoje e no antanho,
pequeno como eu,
do mesmo tamanho.

Além…
onde os muros se agitam perto do fim
e encurtam lugares cá dentro de mim
onde os tectos se descosem da levitação
e calcam alentos de exaltação
onde os ares se refazem a cada minuto
e desprezam arcanjos em estado bruto
onde os brilhos se encobrem num coma de acanho
pequenos como eu,
do mesmo tamanho.

Além…

onde o sustento morre antes dos animais
e secam os líquidos, a água e os demais
onde as flamas mastigam o firmamento
e derretem as cordas do pensamento
onde a morte desbasta as searas de sangue
e tombam os frutos da árvore langue
onde a utopia é um finado do rebanho
pequena como eu,
do mesmo tamanho.

Além…
da linhagem dum arlequim terno,
assim são os palhaços do Inferno.
Assinam os nomes num jeito canho,
pequenos como eu,
do mesmo tamanho.