As sombras de ontem

22 11 2005

O brilho dos teus olhos.
Incessante.





Caravana dos frívolos

22 11 2005

Possessão.
Delirante e doentia possessão.
Não vês além do brasão.

Passeiam adornos na caravana dos frívolos.
E fingem estatuto com ares de imponentes.
Riem as meretrizes além nos prostíbulos
Como elas, sois mais uns no seio das gentes.

Têm bastas riquezas e compram propriedades
Vestem como lordes, condes ou diplomatas
À mesa, usam jóias e falam de inanidades
e o faisão serve-se em baixela de pratas.

Fingem não ver o infortúnio e a indigência,
acham-se o escol da social hierarquia.
Escapam-lhes a genuína classe e a decência
que julgam comprar por uma boa maquia.

Possessão.
Delirante e doentia possessão.
Não vês além do brasão.





O frio vazio de mim

21 11 2005

Tens tanta luz.
Como podes apagar-te assim?

Na decadente luminescência,
és uma estrela em queda.
Do lusco-fusco das incertezas,
renasce essa bastarda aliança universal.
Mar conivente.
Porque o roubas de mim?
E tu, cadente astro celeste
porque te deixas levar assim?
E eu, aqui.
Passivo.
Indiferente para vós.
Apenas remanescente.
Como o amparo que já tive.

Secam as lágrimas.
Não vejo a mulher que me mira.
Que clama por mim, ao meu lado.
Que chora, já não de mim.
Já não de nada.
Já só de tudo.
Do infinito.
Simplesmente chora.

Deixa-me chorar também.
Ampara-a a ela.
Um anjo não pode sofrer assim…
Incapaz me declaro.
Não consigo pintar outra côr naqueles olhos.
Estou ferido e,
nas palavras que conjugo,
nada além do desgosto, do pesar, da tristeza.

Solidão.
Amo-a.
Mas estou tão secamente só.

Amá-la. Tomá-la em meus braços. Beijá-la. Tê-la.
Desejos em eco nos vãos da mente.
Mas…
Não tenho reflexo nesse espelho.
Não me arremesso sem cogitar.
Sou espírito e corpo em desarranjo.

E…
Prostro-me nos altares.
Canto odes milenares.

Nada me vale.
Nem as gentilezas do amor me servem de motrizes.

E também tu, sol, te vais embora?
Depois de ti, o frio vazio de mim.





Da letargia em metamorfose

15 11 2005

Ai se eu pudesse.

Se eu pudesse mascarar-me,
dissimular cobardemente o meu ser
e produzir impunemente um novo eu.

Certamente o faria.
Vivalma o notaria.

Não estaria a alienar-me?
E aos outros, a roubar o remanescente do crer?
E a prescindir da insignificância do que é meu.

Certamente o faria.
Vivalma o notaria.

Ai se eu pudesse.
Não deixaria de ser quem sou.





Elefante

10 11 2005

Tudo não passa de um rumor incandescente,
os lampejos de ontem ainda vibram sem fim.
Vieste e foste e eu sem ser nem ver gente
Devoto-me ao canto mais recôndito de mim.

Foi aqui, no chão húmido que me ampara,
que tiraste as vestes da cor do açafrão,
e teu corpo desnudo em candura de ave rara
abraçou o meu, com um beijo na mão.

Louco, nas certezas cálidas do coito animal,
sorvi o alento sumido da paixão esquecida.
Trouxeste-os em ti, anjo audaz e sensual
e, sem dizeres tua graça, levaste-me a vida.

Agora foste, não voltas e não estás.
Agora fico, não vou e já não sou.
Este pedaço de carne que aqui jaz.
é a memória do tempo que me deixou.

Sinto-me a arrefecer…
Neste cantinho meu.

Deixa-me morrer aqui.