Ser ou não ser

12 03 2005

Crês.

Inocentemente, aceitas dogmas.

Não percebes que, escondido nas cortinas presunçosas da verdade absoluta, há um tabuleiro de jogo. Um xadrez em que és peão sem juízo próprio, movido mecanicamente com os trejeitos de uma marioneta. Irredarguível é o discurso com que te violam a pureza da mente e te privam, de jeito insensível, da candura angélica do mais ínfimo átomo da tua essência. Impõem-te crenças como se fossem ingénitas, furtam-te a mais basilar das liberdades. Sem ela, vives mas não és. Não podes SER quando te subtraiem a condição primaz da tua individualidade. Cedes a razão sem resistência, não te abrigas nem defendes porque não sabes que a tens. Talvez nunca a tenhas sabido tua. Afinal, é à nascença que te estrupam cruamente e te desapossam da claúsula mais idiossincrásica do EU.

Não podes lastimar a perda do que ignoras ter tido.

Sentes-te livre, VIVES sem SER. Julgas-te dono e usufrutuário de ti mas não consegues resgatar-te do encargo de besta mecânica que te deram…Supões que és feliz, que nada nem ninguém pode beliscar a tua autonomia.

Pobre coitado, caíste num logro, não vês?

Tudo o que és, tudo o que podes SER, é exógeno, não é teu. Porque da razão te despojaram quando nasceste.

Ainda crês no sofisma maior?

Voltaste a ser um macaco, uma degenerescência da espécie?

Não podes SER se não te concilias com a tua missão, se não despertas da milenar letargia. Se te limitas a crer, a presumir, a supor e a acreditar jamais te encontrarás.

Vive, mas tenta SER.

Crê, mas faz por descrer.

Sê.

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A torpe presença do medo

11 03 2005

Repugna-me o medo.

Rejeito a forma disforme do seu acinte.

Intentos se quebram na raíz, desfazem-se sem resistência, acobardam-se. Vil intromissão.

Não o chamo. Não o quero. Desminto convenções. Mesmo assim, ele fica. Fita-me com desdém, traz no olhar o escárnio instintivo do logro, rouba-me a integridade. Devolve-me à frívola condição do nada, reduz-me à ínfima dimensão de grão de pó, esmaga-me entre os dedos secos. Relembra-me a contingência da incerteza. Que fazer? Que ser?

Não suporto as risadas insonoras que escuto nas profundezas da memória. Anamneses perturbáveis. Afinal também as há. Derramam-se nas veias, confundem-se no sangue, esquadrinham o corpo e tomam-no de assalto. Suores frios. Inércia inevitável. Inacção. Das sombras de antanho que cobrem o hoje, no exacto instante em que menos convêm, brotam os fluídos que secam os filões de resgate. Não há salvação. O revés anunciado do sempre confirma-se. É evidente. Degrada-me e corrompe-me. Não me mexo mas sinto-o. Está em mim. Eu faço-o, ele desfaz-me. Sou simultaneamente pai e rebento parricida. Perco-me na encruzilhada filial.

Ele cresce com o viço de um imortal. Jamais perecerá. Eu sim, às mãos desse reles parasita. Enoja-me esse invisível monstro asfixiante.

Repugna-me o medo.





As cores do sonho

10 03 2005

Esqueci-me das cores que pintam o sonho.

Perdi a vontade de ser quem sou, como sou…onde residem as forças da redenção? O caminho é obtuso, decorre das minhas próprias fragilidades. Repenso-me. Reencontro a fórmula do devaneio opinador. Creio outra vez. Crês em mim?

Não vês que choro por não sermos o que somos? As lágrimas que verto derramam uma parte intangível do meu ser. Não quiseste acreditar que eu pudesse mudar. Pois mudei, cresci, fiz-me revigorado nas asas de um falcão, toquei a nuvem mais alta e trouxe-te um pedaço. Negaste-me esse prazer oculto de to dar, ofertar-te aquele quinhão de divindade que por ser de todos, de ninguém será. Mas aquele fragmento era teu. De mais ninguém.

Humildemente confesso-me incapaz. Não compras as ideias que vendo, não as acolhes na candura do espírito, não as fazes tuas. E os traços omissos? Esquissos submissos, irresolutos, perdidos na imensidão de uma folha papel alva e virgem. Lembras-te? Unimos as mãos e esgaravatámos as memórias, à procura de um ápice que valesse a imortalidade. Mas ele não existia. A imortalidade não era fito de nós. Riste-te de mim. Fizeste-me rir. Vivi.

Mas, hoje, já não me lembro das cores do sonho.